Kengo Kuma em Berlim

Até 13 de setembro de 2026, Berlim recebe uma exposição dedicada à obra de um dos nomes mais reconhecidos da arquitetura contemporânea: Kengo Kuma. Intitulada Kengo Kuma – The Flow of Lines through the Lens of Erieta Attali, a mostra ocupa o museu de desenho arquitetônico Tchoban Foundation, e propõe um encontro entre desenho, fotografia e arquitetura.

A exposição apresenta os edifícios famosos de Kuma, revela o processo por trás de sua arquitetura e convida o visitante a observar como os materiais e a paisagem se relacionam e complementam de maneira contínua.

Kengo Kuma: uma arquitetura entre natureza e matéria

Nascido em Kanagawa, no Japão, em 1954, Kengo Kuma formou-se em arquitetura pela Universidade de Tóquio e fundou, em 1990, o escritório Kengo Kuma & Associates. Ao longo de sua carreira, tornou-se uma das principais referências da arquitetura japonesa contemporânea, com projetos realizados em diferentes partes do mundo. Atualmente, seu escritório desenvolve projetos em mais de 50 países.

A arquitetura de Kuma parte de uma ideia fundamental: o edifício não deve ser pensado como um objeto isolado, mas como parte de uma relação com o lugar onde é construído. Natureza, cultura, história e materiais participam do seu processo de criação. Em vez de buscar uma arquitetura monumental que domine a paisagem, o arquiteto procura criar espaços capazes de dialogar e às vezes até se funde com ela.

Essa abordagem está relacionada também à tradição arquitetônica japonesa, especialmente à valorização da transparência, da luz e da relação entre interior e exterior. Seu trabalho combina conhecimentos artesanais com novas tecnologias e experimentações materiais, criando interpretações contemporâneas de elementos presentes na arquitetura japonesa.

Em muitos de seus projetos, a estrutura parece perder peso e tornar-se permeável. Entre os projetos que exemplificam essa relação de Kengo Kuma com o ambiente está uma pequena capela em Karuizawa, no Japão, concebida para se integrar à floresta de bétulas ao seu redor. A estrutura combina elementos de aço com troncos e galhos extremamente finos, dispostos de maneira aparentemente aleatória para sustentar a cobertura de vidro. O resultado é uma arquitetura tão permeável que a fronteira entre edifício e a floresta se torna difícil de perceber.

No interior da Birch Moss Chapel, bancos de vidro e acrílico reforçam essa sensação de leveza, enquanto o musgo se estende pelos pisos internos e externos, fazendo com que a própria capela pareça gradualmente desaparecer entre as árvores. 

Outro aspecto importante de sua produção é a experimentação. Para Kuma, um material não precisa manter necessariamente a aparência ou o uso tradicional que normalmente associamos a ele. A pedra, que geralmente é percebida como robusta e pesada, adquire uma aparência leve e delicada em seus projetos. Descrevendo sua forma de projetar, o arquiteto disse: “Pode-se dizer que o meu objetivo é ‘recuperar o local’. O local é resultado da natureza e do tempo; este é o aspecto mais importante. Acho que minha arquitetura é uma espécie de moldura da natureza. Com ele, podemos vivenciar a natureza de forma mais profunda e íntima. A transparência é uma característica da arquitetura japonesa; Tento usar materiais leves e naturais para obter um novo tipo de transparência.”

A exposição: o fluxo das linhas entre desenho e fotografia

É justamente essa relação entre matéria, paisagem e percepção que a exposição “Kengo Kuma – The Flow of Lines through the Lens of Erieta Attali” procura apresentar.

Realizada de 13 de junho a 13 de setembro de 2026, a mostra reúne 86 desenhos feitos à mão por Kengo Kuma e 18 fotografias da fotógrafa de arquitetura e paisagem Erieta Attali. A exposição foi pensada como um diálogo entre duas formas diferentes de observar a arquitetura: o desenho como instrumento de criação e a fotografia como registro da experiência construída.

Os desenhos de Kuma são particularmente interessantes porque permitem observar uma dimensão menos conhecida de sua produção. Antes de se transformar em edifício, sua arquitetura passa pelo papel. Linhas, fragmentos, sobreposições e estudos revelam um processo no qual a forma não surge necessariamente como algo definitivo, mas como parte de uma investigação. 

Ao lado desses desenhos estão as fotografias de Erieta Attali, que trabalha principalmente com arquitetura e paisagem. Suas imagens observam os edifícios de Kuma em relação ao ambiente em que estão inseridos, enfatizando momentos em que estrutura, luz, vegetação, céu e matéria parecem se misturar. O contraste entre a abstração dos rascunhos de Kuma e a realidade presente nas fotografias de Attali é o que torna a exposição tão especial, criando um percurso entre a imaginação e a concretização.

É também daí que surge a ideia de “fluxo das linhas”, presente no título da exposição. Em vez de enxergar a arquitetura como algo estático, a mostra apresenta o projeto como um processo contínuo, no qual linhas, materiais, luz e espaço se transformam juntos.

A exposição também chama atenção para algo que muitas vezes fica escondido na arquitetura contemporânea: o processo de pensamento do arquiteto. Em uma época em que ferramentas digitais ocupam um espaço cada vez maior no desenvolvimento dos projetos, os desenhos manuais de Kuma revelam como o gesto de se sentar em frente à um papel com apenas um pedaço de carvão e muita criatividade é tudo o que é necessário para imaginar um espaço.

Tchoban Foundation: a preservação do desenho arquitetônico

A escolha da Tchoban Foundation – Museum für Architectural Drawing como espaço para a exposição não é por acaso. Fundada em 2009 pelo arquiteto e colecionador Sergei Tchoban, a instituição tem como foco justamente a história e a importância do desenho arquitetônico.

Em um momento em que grande parte dos projetos é desenvolvida por meio de softwares de modelagem e representação digital, a fundação dedica-se a preservar e apresentar o desenho como uma parte fundamental da cultura arquitetônica. Sua coleção reúne desenhos de diferentes períodos, com especial atenção à produção arquitetônica dos séculos XX e XXI, e também serve como base para pesquisas sobre a história e a natureza do desenho de arquitetura.

A própria arquitetura do museu reforça essa ideia. Projetado pelo escritório de Sergei Tchoban, o edifício é composto por volumes que parecem estar empilhados uns sobre os outros. Seus blocos de arenito apresentam uma aparência monolítica, enquanto relevos inspirados em desenhos arquitetônicos aparecem nas fachadas. No topo, um volume de vidro funciona como sala de reuniões e estabelece um contraste com os volumes mais fechados abaixo.

No interior, o museu abriga espaços de exposição, biblioteca, áreas de pesquisa e um acervo acessível a pesquisadores. A instituição realiza regularmente exposições que apresentam tanto obras de sua própria coleção quanto trabalhos desenvolvidos em colaboração com instituições internacionais.

A exposição de Kengo Kuma em Berlim oferece uma perspectiva diferente sobre a arquitetura contemporânea. Em vez de observar apenas edifícios concluídos, o visitante acompanha parte do caminho que existe entre a primeira linha desenhada e a experiência do espaço construído. Confira os detalhes da exposição no site da Tchoban Foundation.

Local: Tchoban Foundation – Museum für Architectural Drawing, Christinenstraße 18a, 10119 Berlin
Data: 13 de junho a 13 de setembro de 2026
Horário de funcionamento: Segunda a sexta, 14h–19h | Sábado e domingo, 13h–17h
Ingressos: Entrada: €6 | reduzida: €4

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