Prêmio Pritzker: história, critérios e o vencedor de 2026

Prêmio Pritzker: história, critérios e o vencedor de 2026

Criado em 1979, o Prêmio Pritzker é uma das principais distinções internacionais da arquitetura. Esse ano, o arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke foi reconhecido por suas obras marcadas pela experimentação com materiais, pela atenção ao contexto do local e por uma abordagem particular da relação entre arquitetura e experiência humana.

A história do Prêmio Pritzker

Criado em 1979 por Jay Pritzker e sua esposa, Cindy Pritzker, por meio da Hyatt Foundation, o Prêmio Pritzker foi instituido para reconhecer arquitetos vivos cuja obra apresentasse contribuições significativas para a arquitetura e para o ambiente construído.

Conhecido frequentemente como o “Nobel da Arquitetura”, o prêmio procura destacar trajetórias que combinam qualidade projetual, visão e compromisso com a sociedade, e, desde a sua criação, a premiação tem como princípio reconhecer a contribuição de um arquiteto ao longo de sua carreira, e não apenas o mérito de um projeto isolado.

O júri é composto por profissionais de diferentes áreas e países, e suas deliberações são conduzidas de maneira independente e confidencial, buscando garantir que a escolha dos laureados não sofra interferências externas.

O laureado recebe uma premiação de US$ 100 mil, um certificado oficial e uma medalha de bronze, concedida nesse formato desde 1987. A medalha faz referência ao arquiteto norte-americano Louis Sullivan e apresenta, em seu reverso, três princípios fundamentais da arquitetura formulados a partir dos escritos do pensador romano Vitrúvio: firmitas, utilitas, venustas — solidez, funcionalidade e beleza.

Diferentes abordagens reconhecidas pelo prêmio

O histórico de laureados pelo Pritzker reúne arquitetos com métodos de trabalho, referências e concepções de projeto bastante distintos. Essa diversidade demonstra que a premiação não se associa a um estilo específico, mas à relevância e à qualidade de uma trajetória arquitetônica.

Em 1983, o prêmio foi concedido a I. M. Pei, reconhecido pelo uso de formas geométricas e pela integração entre arquitetura moderna e edifícios históricos. Um de seus projetos mais conhecidos é a pirâmide de vidro do Museu do Louvre, em Paris, concluída em 1989. A intervenção criou uma nova entrada para o museu e estabeleceu um contraste entre a estrutura contemporânea e a arquitetura histórica do conjunto.

Em 1995, Tadao Ando foi reconhecido por sua abordagem da luz, do espaço e do concreto aparente. Na Igreja da Luz, em Ibaraki, no Japão, esses elementos são utilizados de maneira econômica, com aberturas que controlam a entrada de iluminação natural e definem a organização do espaço interior.

Em 2016, o arquiteto chileno Alejandro Aravena recebeu o prêmio por projetos que abordam questões sociais e habitacionais. Por meio do escritório ELEMENTAL, desenvolveu propostas de habitação social que permitem aos moradores ampliar progressivamente suas casas. O conjunto Quinta Monroy, em Iquique, no Chile, é um exemplo dessa estratégia: a construção inicial oferece a infraestrutura básica para que as famílias adaptem as unidades às suas necessidades ao longo do tempo.

Em 2022, Francis Kéré, nascido em Burkina Faso recebeu o Pritzker por seu trabalho que une sustentabilidade, impacto social e valorização de materiais locais em regiões com pouquíssimos recursos. Na Escola Primária de Gando, por exemplo, a utilização de materiais disponíveis na região e a ventilação natural contribuem para o conforto dos ambientes de ensino.

O Brasil também ocupa um lugar importante na história do Prêmio Pritzker. Em 1988, Oscar Niemeyer foi o primeiro brasileiro a receber a distinção, em reconhecimento a uma obra marcada pelo uso expressivo do concreto armado e pela exploração das possibilidades plásticas das formas arquitetônicas. Entre seus projetos mais conhecidos estão o Congresso Nacional e a Catedral Metropolitana de Brasília, que integram o conjunto urbanístico da capital brasileira. Em 2006, Paulo Mendes da Rocha recebeu o prêmio por uma trajetória caracterizada pelo rigor estrutural, pelo uso do concreto e pela relação entre arquitetura, espaço público e contexto urbano. Projetos como o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, e a reforma da Pinacoteca do Estado demonstram sua abordagem da estrutura como elemento central da organização espacial.

Esses projetos representam diferentes contribuições para a arquitetura: a intervenção em conjuntos históricos, a exploração das propriedades dos materiais, a habitação social e a adaptação das construções às condições locais. Em cada caso, o prêmio reconhece uma produção que amplia as possibilidades de atuação da disciplina.

Smiljan Radić Clarke: o laureado de 2026

Em 2026, o Prêmio Pritzker foi concedido a Smiljan Radić Clarke, arquiteto nascido em Santiago, no Chile, onde mantém seu escritório. Filho de uma família de origem imigrante, com raízes croatas por parte de pai e britânicas por parte de mãe, Radić desenvolveu uma trajetória marcada pelo interesse em história, arte, filosofia e literatura.

Após sua graduação na Pontifícia Universidade Católica do Chile, aprofundou seus estudos de história no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. Além disso, realizou diversas viagens, e Radić considera essa a experiência mais essencial de sua trajetória de aprendizado.

Pite House - Foto: Cristobal Palma
Pite House – Foto: Cristobal Palma

 

Uma característica importante de sua produção é a ausência de uma linguagem formal repetida de um projeto para outro. Em vez de aplicar soluções semelhantes a diferentes edifícios, Radić desenvolve cada proposta a partir das condições específicas do terreno, dos materiais e do contexto histórico e social.

O júri do Pritzker destacou a maneira como o arquiteto trabalha com a incerteza formal, a experimentação material e a memória cultural. Seus edifícios podem parecer provisórios ou incompletos, embora apresentem soluções construtivas rigorosas, e essa combinação constitui um dos aspectos centrais de sua obra.

Projetos de destaque

Pite House, Chile, 2005

Pite House – Foto: Cristobal Palma

 

Pite House – Foto: Cristobal Palma
Pite House – Foto: Cristobal Palma
Pite House – Foto: Cristobal Palma

Localizada em Papudo, na costa chilena, a Pite House é uma residência projetada em resposta às condições específicas do terreno e do clima. Sua implantação considera a exposição ao vento e à luz, demonstrando a importância que Radić atribui às características ambientais de cada local.

O projeto exemplifica sua abordagem contextual: a configuração da residência está diretamente relacionada às condições do terreno, em vez de partir de uma forma previamente estabelecida.

Restaurante Mestizo, Chile, 2006

Restaurant Mestizo – Foto: Gonzalo Puga
Restaurant Mestizo – Foto: Gonzalo Puga

Situado em Santiago, o Restaurante Mestizo estabelece uma relação direta entre arquitetura e paisagem. Parte da construção se integra ao terreno, enquanto grandes pedras participam da composição do conjunto.

O projeto demonstra como a escolha dos materiais e a implantação podem estabelecer continuidade entre o edifício e o ambiente natural.

 

Pavilhão Serpentine, Reino Unido, 2014

Serpentine Gallery Pavilion – Foto: Iwan Baan
Serpentine Gallery Pavilion – Foto: Iwan Baan

Projetado para a Serpentine Gallery, em Londres, o pavilhão de 2014 é um dos trabalhos mais conhecidos de Radić. A estrutura apresenta uma cobertura translúcida de fibra de vidro apoiada sobre grandes blocos de pedra.

A combinação entre a leveza visual da cobertura e o peso dos apoios cria um contraste construtivo importante. A luz atravessa parcialmente a envoltória, enquanto a abertura lateral mantém a conexão com o parque. O resultado é um espaço protegido que não depende de um fechamento completo para definir seus limites.

Por se tratar de uma construção temporária, o projeto também permite investigar como materiais e sistemas construtivos podem produzir experiências espaciais específicas sem recorrer às soluções convencionais de um edifício permanente.

NAVE, Chile, 2015

NAVE, Performing Arts Center – Foto: Cristobal Palma
NAVE, Performing Arts Center – Foto: Cristobal Palma
NAVE, Performing Arts Center – Foto: Cristobal Palma

Em Santiago, Radić desenvolveu o NAVE a partir de um edifício residencial do início do século XX que havia sido danificado por um desastre natural. Em vez de substituir integralmente a construção existente, preservou partes de sua estrutura e introduziu novos volumes destinados a apresentações, ensaios e oficinas.

No terraço, uma cobertura semelhante a uma tenda de circo acrescenta um elemento temporário ao conjunto. O projeto demonstra uma abordagem de reabilitação que mantém vestígios da construção anterior e adapta o edifício a novos usos culturais.

Arquitetura, abrigo e experiência humana

A relação entre proteção e vulnerabilidade é um tema recorrente na produção de Radić. Para o arquiteto, um abrigo não deve ser entendido apenas como uma estrutura que protege das condições externas, mas também como um espaço capaz de proporcionar privacidade e uma experiência particular de habitar. Um lugar que convida à autorreflexão e introspecção.

Radić reflete que as ideias habitam as coisas, e em sua carreira sempre procurou construir ambientes onde outros pudessem descobrir ideias emergentes. O arquiteto diz que há uma complexidade no ato de cercar um espaço: “um abrigo proporciona um distanciamento da realidade, enquanto um refúgio nos leva a sentir que a vida ali dentro é única. Mas o que precisamos é de proteção — um lugar de estabilidade para acolher a fragilidade”.

Essa ideia aparece na House for the Poem of the Right Angle, construída em Vilches, no Chile, em 2013. A residência apresenta aberturas cuidadosamente posicionadas, que permitem a entrada de luz e favorecem uma relação contemplativa com o ambiente.

House for the Poem of the Right Angle – Foto: Smiljan Radić
House for the Poem of the Right Angle – Foto: Gonzalo Puga
House for the Poem of the Right Angle – Foto: Smiljan Radić

Outro exemplo é o Pequeño Edificio Burgués, concluído em Santiago em 2023. O edifício combina residência e estúdio, estabelecendo uma relação visual com a cidade e, ao mesmo tempo, preservando a privacidade dos espaços internos por meio de cortinas de tela metálica. As superfícies de vidro permitem perceber as mudanças de luz e as condições climáticas, enquanto o estúdio parcialmente subterrâneo oferece um ambiente de trabalho mais protegido.

Esses projetos demonstram que, para Radić, a arquitetura não se resume à composição visual de um edifício. A organização dos espaços, a escolha dos materiais e a relação com o exterior são pensadas a partir da maneira como as pessoas utilizam e percebem os ambientes.

Em 2017, o arquiteto também criou a Fundación de Arquitectura Frágil, em Santiago. A instituição promove pesquisas, exposições e atividades relacionadas à arquitetura experimental, reunindo referências e trabalhos de outros profissionais. A iniciativa amplia sua atuação para além do escritório e reforça seu interesse pela investigação e pelo intercâmbio entre diferentes disciplinas.

A escolha de Smiljan Radić Clarke como laureado do Pritzker de 2026 reconhece uma trajetória de mais de três décadas dedicada à experimentação arquitetônica.

Ao contrário de uma abordagem baseada na repetição de uma linguagem formal, Radić procura desenvolver soluções particulares para cada contexto. Seus edifícios demonstram que a experimentação não exclui o rigor técnico e que materiais convencionais podem assumir novas funções quando empregados de maneira não habitual.

O Pritzker de 2026 reconhece, portanto, uma prática que investiga diferentes possibilidades de construir e habitar. Ao longo de sua trajetória, Radić demonstrou como a arquitetura pode articular referências culturais, condições ambientais e decisões técnicas sem depender de uma fórmula única. Essa abordagem constitui a principal contribuição de seu trabalho para o debate arquitetônico contemporâneo.

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